Política

Ronaldo Caiado Futuro governador tem (muita) história

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Eleito para comandar Goiás de 2019 a 2022, Caiado tem um currículo educacional invejável. Atuou ao lado dos produtores rurais, mas ampliou sua pauta em defesa de vários segmentos

Caiado foi candidato à presidente, disputou governo em 1994 e sempre se elegeu como um dos parlamentares mais votados de Goiás. Tornou-se um mito das oposições no tempo do PT e MDB no poder

Welliton Carlos

Uma aberração econômica despertou no produtor rural e médico ortopedista Ronaldo Caiado o interesse pela política. Corria o ano de 1986 e o então presidente José Sarney (MDB) tirou da manga uma ideia estapafúrdia que dificilmente daria certo em uma economia liberal: o congelamento de preços.

Sob o ponto de vista do produtor, era inconcebível que a economia continuasse dinâmica nos impostos, nas altas de combustível e congelada nos preços. Algo não daria certo – como não deu.

Quando o futuro governador de Goiás – eleito neste domingo, 7, e que irá assumir  em 1º de janeiro um Estado com uma das maiores dívidas públicas do país, repleto de acertos por fazer, inchado de comissionados sem nenhuma especialidade e com toda receita comprometida até 2030 – decidiu entrar para a “política” mais ninguém desejava defender o agronegócio – uma bandeira que vinha sendo atacada desde a era JK.  Ser do campo era uma vergonha, um estigma, era algo a ser escondido diante da nascente urbanização das cidades médias do país.

Ainda desconfiado, naquele ano de 1986, Caiado teve que abdicar de um passado recente de dedicação exclusiva à medicina, de produção rural e de tranquilidade da vida particular. Resolveu unir as duas atividades com a representatividade.

Não fosse a “política”, teria se transformado em uma das maiores autoridades no mundo em sua área de pesquisa. Seu mestrado é apontado como referência. É autor da obra “L’opération de cloward dans le traitement de la névralgie cervico-brachiale”, publicada em 1978.

Desde 1968, o médico que nasceu em Anápolis estava envolvido com a ideia de ser cirurgião. Em 1977 foi assistente estrangeiro da Universidade de Paris, onde focou: seria cirurgião ortopédico, enfim, um profissional da traumatologia.

Nos anos seguintes, voltou para o Brasil e lecionou no Departamento de Ortopedia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Até 1984, se envolveu com a residência médica e lecionou para alunos no Hospital Miguel Couto.

Diante da pressão do presidente Sarney, dos movimentos organizados de defesa da terra e da anunciada discussão sobre uma nova constituinte, Caiado resolveu defender publicamente os produtores rurais. Povo tímido, escondido no interior do Brasil, sem boa persuasão, o produtor rural escolheu Caiado e sua voz grave para defendê-lo.

A partir da União Democrática Ruralista (UDR), entidade que ajudou a criar para fazer frente aos movimentos que atacavam o campo, Caiado organizou um dos maiores protestos já realizados em Brasília. Em fevereiro de 1987, 25 mil ruralistas marcharam na capital e exigiram respeito aos seus direitos.  Dali, foi um pulo para ser candidato à presidente em 1989 – e o primeiro a enquadrar Lula em um debate que tornou-se hit no Youtube. Após ser derrotado, em 1990, foi eleito o deputado federal mais votado de Goiás, com 98.256 votos.

Bastaria aqui para Caiado fazer história. O que mais impressiona é que durante os debates com candidatos ao governo de Goiás nós últimos 40 dias de campanha nada disso veio à tona por conta dos adversários: a legítima representatividade de um grupo de produtores que levanta cedo e coloca comida na mesa dos brasileiros.

Nos anos 1980 e 1990, Caiado rearticulou o segmento produtivo. E politicamente foi o mentor da direita brasileira – essa mesma que hoje, 30 anos depois, não tem medo de assumir o que pensa e prenuncia conquistar a presidência da República.

Aliado ao passado de ruralista, durante toda a campanha, Caiado fez referência ao trajeto de candidato ficha-limpa. “Jamais envergonhei os goianos”, costumava dizer nos momentos finais dos discursos que iniciaram primeiro no movimento “Unidos para Mudar Goiás”.

Ao lado do senador Wilder Morais (DEM) e de um pequeno grupo, que cresceu depois na reta final de campanha, ele conseguiu falar aquilo que a população desejava ouvir: é preciso ter esperança.

Sem criar nenhuma fake news ou permitir qualquer ataque desleal de seus correligionários da então criada coligação “A mudança é agora”, título que saiu primeiro em um jornal instantâneo distribuído a cada evento que era realizado, Caiado  venceu as eleições articulando toda sua história: oposicionista por natureza, em 1994, concorreu ao Governo de Goiás contra o grupo que estava ali há tempos estabelecido.

Ficou em terceiro lugar, numa disputa em que as oposições marcharam divididas – exatamente como ocorreu nas eleições deste ano.  Caiado ficou de fora do segundo turno, que teve o enfrentamento de Lúcia Vânia e Maguito Vilela.

Naquele ano ocorreu um intercurso: Caiado e Lúcia perderam as eleições majoritárias e o então deputado estadual Marconi Perillo (PP), que surgiu na política graças ao apoio de Henrique Santillo, foi eleito deputado federal com 40.258 votos – votos herdados em parte por eleitores de Lúcia Vânia e Caiado, que decidiram concorrer ao governo e deixaram livre seus colégios eleitorais.

Enfraquecida diante do governo emedebista que venceu mais aquela disputa, a oposição optou nos quatro anos seguintes, em 1998, lançar Perillo para o governo. Caiado decidiu voltar para a Câmara Federal e foi o mais votado da oposição, com 100.446 votos.

Foi um dos articuladores da vitória de Marconi, em 1998 e sua reeleição, em 2002. Mas em 2003, os marconistas resolveram enfraquecer Caiado em uma sabotagem pública: o PSDB e demais legendas da base cooptaram 30 prefeitos de 36 prefeituras comandadas pelo então PFL – partido de Caiado. A pressão incluía um aviso: “Quem andar com doutor Ronaldo não terá recursos do Governo do Estado”.

“Foi um abalo e uma grande pressão. Não foi fácil ficar ali com ele. Perdemos força, prestígio, amizades. Mas jamais pensei em deixar Caiado”, recorda Paulo Carneiro, ex-prefeito de Rialma, que era do PFL na época e que resolveu se manter ao lado do democrata.

Assessor do senador Wilder Morais e um dos participantes da campanha de Caiado, Paulo Carneiro é ainda hoje testemunha dos métodos usados naquele início de século para tentar desconstruir o futuro governador.

Diante das pressões, em nome dos demais partidários do DEM, Caiado adotou uma postura democrática: o PFL/DEM permaneceu na base aliada, já que a maioria dos filiados assim preferiu. Ele se afastou: realizou campanha independente. E desta forma venceu três eleições, sendo a última para senador, em 2014, já como oposição ao PSDB, com 1.283.665 votos.

NACIONAL

Caiado é o único político efetivamente goiano com projeção nacional que disputou a presidência. Voltou a ser sondado recentemente para integrar o grupo ideológico de direita.

Quatro anos antes do impeachment de Dilma, ao assumir a liderança do Democratas na Câmara dos Deputados, Caiado voltou a ter grande projeção nacional.

Foi o único político goiano que efetivamente  fez oposição aos mandatos de Lula e Dilma,  impondo derrotas aos dois perante a opinião pública. Em pouco tempo tornou-se o maior nome da oposição ao PT no país, conseguindo reunir uma multidão de seguidores nas redes sociais.

Firmou-se como exemplo de retidão e ética, tornando-se o maior nome do Congresso Nacional, arrebatando os principais prêmios do Congresso Nacional, como a seleção rigorosa do DIAP dos “cabeças do Congresso” e a seleção popular e de especialistas realizada pelo site Congresso em Foco.

Um dos momentos mais marcantes de sua carreira de orador no parlamento ocorreu quando vaticinou a prisão de Antony Garotinho, o ex-governador do Rio de Janeiro detido durante a operação Lava Jato.  Corajoso, Caiado foi na tribuna e disse que Garotinho era um “chefe de quadrilha”.  Seu discurso é um primor libertário.

Caiado disse o que muitos desejavam falar, mas temiam, já que Garotinho se arvorava em um superpoder político advindo de sua relação com todo um sistema corrupto representado pelo PT e aliados. O vídeo foi um dos mais comentados da política brasileira, sendo compartilhado mais de 10 milhões de vezes nas redes sociais.

Senador avançou em diversas pautas

A representatividade de Ronaldo Caiado começou com a defesa do produtor rural, primeiro com a renegociação das dívidas agrícolas, mas avançou para outras frentes da sociedade – como a classe média urbana, pacientes de doenças raras, médicos, religiosos, dentre outras.

Nos anos 90, a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) desejava que ele comandasse a UDU – uma entidade semelhante à UDR para cuidar dos assuntos urbanos. Mas ele rejeitou naqueles anos: “Não entendo nada de cidade. Sou do campo”. Na época, Flávio Teles Meneses o chamou na imprensa de “o Lula da direita” e o classificou como “um fenômeno de massas”.

Atuou de diversas formas para impedir que o campo fosse inviabilizado. Nos anos 1990, no governo de FHC, por exemplo, derrubou a proposta do governo de cobrar uma taxa de 3% para a previdência social sobre o lucro bruto dos fazendeiros que teriam funcionários assalariados.

Na tentativa de modernizar a política brasileira, apresentou um complexo relatório sobre a “Reforma política”. Apresentou proposições que anunciaram mudanças no sistema eleitoral brasileiro, mas trombou com os caciques do Congresso. Chegou a propor o estudo de ciência política nas escolas de ensino médico, tendo em vista formação do cidadão mais consciente e apto a entender seus direitos sociais e individuais.

SAÚDE

Durante o governo de Dilma Rousseff, Caiado conseguiu inserir uma mudança essencial na lei de royalties do petróleo para atender as políticas públicas de saúde.  Ele é o autor da emenda que destina 75% dos recursos para a educação e 25% para a saúde. Sua proposta foi aceita pelo Poder Executivo, que converteu a sugestão em lei federal.

Na época, Caiado disse que a “a situação da saúde é caótica”. A Lei 12.858/2013, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, injetou milhares de reais no segmento.

É um engano achar que suas propostas são voltadas apenas para o segmento rural ou que não tenha travado debates de interesses trabalhistas, por exemplo. Em 2009,  ao observar a dificuldade crescente do trabalhador desempregado voltar ao mercado de trabalho, propôs a ampliação do benefício do seguro desemprego para um período de seis a doze meses.

CRONOLOGIA

O tempo de Ronaldo Caiado

1949

Nasce em Anápolis

Ronaldo Ramos Caiado nasce em Anápolis (GO) em 25 de setembro de 1949. Filho de Edenval Ramos Caiado e Maria Xavier Caiado, é neto de Antônio Totó Ramos Caiado, senador influente da política republicana.

1968

Faculdade

No início da década de 1968, Ronaldo Caiado ingressou no curso de medicina da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

1976

Pesquisa científica

O médico participa do XVI Congresso Brasileiro de Cirurgia e do I Seminário Brasileiro de Pós-Graduação em Cirurgia, também no Rio. Passa a se interessar pela vida científica e acadêmica.

1977

Paris

Ronaldo Caiado se transforma em assistente estrangeiro da Universidade de Paris. Dentre 1978 e 1979, leciona no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UFRJ.

1985

Goiás

 Funda a União Democrática Ruralista (UDR) após a ocorrência de uma série de invasões no Triângulo Mineiro. Uma das fazendas é desapropriada e os produtores litam na Justiça para reverter a ocupação.

1986

Congelamento de preços

Plano Cruzado impõe congelamento de preços. E quem “paga o pato” é o produtor rural. Ronaldo articula grande movimento social.  Caiado aparece na capa da revista Veja em junho de 1986.  No título, ele é apresentado como o “líder da UDR”.

1989

Candidato a presidente

Em 1989, Ronaldo Caiado acelera a defesa do segmento agrícola. É candidato á presidente da República e questiona Lula quanto aos primeiro escândalos das gestões do PT.

1994

Governo  de Goiás

Com grande capital político é candidato ao governo de Goiás. Perde as eleições, da mesma forma que a oposição, por caminhar dividida. Maguito Vilela (MDB) é o grande vencedor.

1998

Campeão de votos

Ronaldo Caiado vence as eleições para a Câmara dos Deputados com um recorde de votos.  Antes, em 1990, já tinha exercido o cargo. Dessa vez, se solidifica como um dos cabeças do Congresso Nacional.

2003

A traição do Tempo Novo

Após uma série de ações políticas que visavam prejudicar seu partido, Caiado opta em se afastar aos pouco do grupo político que se inseriu. Permite o partido seguir dentro do “Tempo Novo”, mas com reservas e sem misturar sua campanha com o grupo. Defende o afastamento.

2009

Líder do democratas

Ronaldo Caiado se transforma líder do Democratas na Câmara dos Deputados. Passa a ser figura central e determinante na oposição ao Governo de Lula, Dilma e Michel Temer.

2014

Eleito senador

É eleito senador de Goiás com apoio do MDB e de Iris Rezende. Amplia o discurso oposicionista ao Governo de Goiás e anuncia que o Estado está tomado pelo “crime organizado”. Uma série de prisões envolvendo integrantes do PSDB se sucede após suas denuncias.

2017

Contra Aécio

Quando se especulava que Caiado teria “inventado” uma queda de mula para não votar contra o afastamento do senador Aécio Neves, eis que ele surge empurrado pela esposa Gracinha para declarar que desejava o afastamento do colega senador.

2018

Eleito governador

Contra a máquina do Estado e das principais prefeituras de Goiás (caso da prefeitura de Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis) é eleito com uma votação história. Lidera a disputa sem jamais ser ameaçado pelas forças do MDB e do PSDB. Bate o então governador José Eliton, a quem deu oportunidade para ser político.

About the author

Allan Ribeiro

Minha história com o jornalismo tem uma trajetória que começou a ser escrita aos 11 anos de idade, quando comecei a representar o jornal O Diário da Manhã.
O fiz por gostar de ler e de estar informado. De entregar o jornal passei a enviar notícias da cidade a serem publicadas.
Ao visitar o jornal, em conversar com o senhor Batista Custódio, surgiu a possibilidade de publicar artigos sobre temas específicos. Foi o que fiz, e ver a repercussão só me incentivou.
Deste ponto passei a publicar também no O Popular. Como a volta do Novo Horizonte ao futebol profissional integrei a equipe da Rádio Xavantes, graças a Deus, naquela oportunidade o time subiu para a divisão de elite.

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