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106 anos de ferrovia em Goyaz

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27 de maio de 1912, foi a data em que o canto do carro de boi começa a diminuir o seu tom e abria espaço para o som da Maria Fumaça. Na referida data era concluída a ponte Engenheiro Bethout, sobre o Rio Paranaíba na divisa entre Goyaz*e Minas Gerais. O “despertar dos dormentes” ainda tímido naqueles dias, colaborou para o desenvolvimento da nossa região.

Passeio pela história

Antes de chegarmos a exata data de 106 anos atrás, convido a você fazer um breve passeio pela nossa história. A partir das Entradas*, Bandeiras* e Descidas*, Goyaz foi sendo ocupado aos poucos. Havia grande expectativa dos colonizadores de que no interior do Brasil pudesse haver Ouro.

Em 1682, Bartolomeu Bueno da Silva, acompanhado de seu filho na época com 14 anos, Bartolomeu Bueno da Silva Filho chegaram a região da atual cidade de Goiás, aos pés da Serra Dourada e ali identificaram indícios de que pudesse haver Ouro na região. Bartolomeu (pai) ficou conhecido como Anhanguera*, pois colocou aguardente em uma bateia e ateou fogo. A tática foi usada em frente a indígenas que ficaram com medo do Bandeirante colocar fogo nos rios. Pai e filho voltam para a Vila de São Paulo.

Anhanguera (pai) morre e o filho prossegue o projeto e retorna a Goyaz. Para isso, os bandeirantes de forma cruel, dizimaram as tribos dos Goyazes e dos Caiapós que viviam na região da Serra Dourada. Em 1727 funda o Arraial de Santana, atual Cidade de Goiás e começa de fato o Ciclo do Ouro em Goyaz.

No início do século XIX praticamente não havia mais Ouro a ser retirado nas minas descobertas. A Coroa Portuguesa não permitia naquele período a diversificação da economia em locais como Goyaz, deveria se concentrar apenas na extração do mineral, deixando as outras atividades sob responsabilidade de outras províncias.

Goyaz sofreu com o fim do Ciclo do Ouro. A pecuária extensiva foi sendo adotada em vários pontos, devido a facilidade de pasto, nas regiões de campo limpo no Cerrado e pelo fato de a produção se autotransportar. Goyaz carecia de estradas, de comunicação, o cenário era desolador.

O viajante August de Saint Hilaire, viajante europeu que veio a Goyaz, descreveu o cenário. Ele usou em seus relatos adjetivos como indolência * e inanição*. A região vivia um período de decadência e não havia alternativas, mas a observação dele foi a partir de uma ótica eurocêntrica, o que era uma percepção particular. O quadro durou todo o século XIX.

Chegada da Ferrovia

Em 1896, os trilhos da Estrada de Ferro Mogiana já chegavam a Araguari (MG) e em 1909 outro ramal ferroviário já alcançava Barretos (SP). Também em 1909, iniciava-se a construção da Estrada de Ferro Goyaz, a partir de Araguari. Em 1913, a ferrovia avançou em algumas localidades que se formaram e outras existentes.

Em 1913 os trilhos chegaram a Anhanguera, Cumari, Catalão e Ipameri, avançando território goyano até chegar em Anápolis em 1935 e a nova capital Goiânia em 1950. A ferrovia sem dúvida alguma foi o primeiro instrumento de comunicação e transporte moderno de Goyaz.

A ferrovia propiciou a chegada de muitos instrumentos que ajudaram a tirar Goyaz do isolamento geográfico e econômico, por exemplo, a primeira agência do Banco do Brasil no estado foi em Ipameri, cidade que era um entreposto de comercialização de gado e que cresceu muito graças a ferrovia.

Goyaz pôde se comunicar com as principais regiões econômicas do Brasil, pode exportar a produção agropecuária e ainda importar bens. A via-férrea propiciou condições para o escoamento da produção de itens como Arroz, Milho e Feijão, além do gado, com destaque para as charqueadas em Ipameri, Pires do Rio e Catalão.

A ferrovia colaborou com o povoamento do território goyano, com o desenvolvimento de outras regiões já existentes.  A Estrada de Ferro de Goyaz foi fundamental para tirar Goyaz da triste situação do século anterior.

A ferrovia também foi instrumento para imigração na nossa região. Destaque por exemplo para comerciantes árabes (sírios e libaneses) que se espalharam por diversos pontos de Goyaz, entre outros grupos.

Futuro

O transporte ferroviário nunca foi de fato prioridade no Brasil. Em Goyaz poucos foram os líderes políticos que verdadeiramente se empenharam ao longo da história para desenvolver o modal. Hoje a atual Ferrovia Centro Atlântica encontra-se subutilizada, com constantes ameaças da concessionária não querer operar mais no estado.

O Brasil vive uma greve enfrentada por caminhoneiros. Aqui não pretendo entrar no mérito das reivindicações, que entendo que são justas. Mas o país colhe o que plantou. O Brasil se tornou refém do rodoviarismo, o segundo tipo de transporte mais caro, perdendo apenas para o aéreo.

O ferroviário é o segundo mais barato, tem maior capacidade de transporte do que o rodoviário, além disso uma rede deve ser pensada em diferentes modais. O rodoviário seria complementar, para pequenas distâncias regionais. Os caminhoneiros fariam mais viagens, em menor distância.

O transporte ferroviário ajudou a transformar Goyaz no passado e tem plenas condições de colaborar numa nova mudança. Temos eleições neste ano, que os candidatos possam ter atenção quanto a este modal de transporte que há 106 anos, ajudou a tirar o nosso estado do atraso e isolamento.

Glossário
*Goyaz: nome do estado a partir da referência da tribo dos índios Goyazes. Grafia antiga do atual nome Goiás.
* Entradas, Bandeiras e Descidas. Expedições ao interior do país em busca de ouro, colonização ou catequização de índios.
*Anhanguera: Diabo Velho na língua tupi. Nome dado a uma cidade no sudeste do estado, a uma avenida em Goiânia e a uma emissora de televisão na capital. O Anhanguera (filho) tem estátua no centro de Goiânia, local conhecido como Praça do Bandeirante.
* Indolência: Preguiça
* Inanição: Fome
SAMUEL STRAIOTTO – Diário de Goiás

About the author

Allan Ribeiro

Minha história com o jornalismo tem uma trajetória que começou a ser escrita aos 11 anos de idade, quando comecei a representar o jornal O Diário da Manhã.
O fiz por gostar de ler e de estar informado. De entregar o jornal passei a enviar notícias da cidade a serem publicadas.
Ao visitar o jornal, em conversar com o senhor Batista Custódio, surgiu a possibilidade de publicar artigos sobre temas específicos. Foi o que fiz, e ver a repercussão só me incentivou.
Deste ponto passei a publicar também no O Popular. Como a volta do Novo Horizonte ao futebol profissional integrei a equipe da Rádio Xavantes, graças a Deus, naquela oportunidade o time subiu para a divisão de elite.

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